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Milena 🐱

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Arquivo pessoal (11 de julho de 2025). Alguns gatos parecem ilhas: isolados, distantes, de acesso quase restrito. Por isso meu ego de gateiro ficou inflado quando a dona de uma gata arisca confessou: "Você é uma das pouquíssimas pessoas que ela permite se aproximar". A aproximação em si já é tão difícil quanto atravessar o oceano em busca de um tesouro perdido. Tem que ter mapa, bússola, a sorte de um mar que te mova sem querer te afogar e, acima disso, cautela para ler e interpretar o que dizem os ponteiros. Gatos são mesmo assim. E precisa-se quase das mesmas coisas para acessar seu mundinho particular. É bastante complicado medir a paciência e a disposição deles para socializar com humanos desconhecidos. Mais difícil ainda é garantir o afeto (se algum dia um bichano qualquer roçar na sua perna, de repente, considere-se sortudo, pois não é para qualquer um). Mas uma vez que a  Zuzu  deitou e rolou aos meus pés e expôs a barriguinha, e ainda mais quando deixou acariciar aque...

o olho 👀

NS1.38.5.21.256 Desde pouco tempo, percebo a presença de alguém que vive a assistir o mais íntimo do meu cotidiano. Alguém capaz de exercer a onipresença em minha vida de tal forma que se tornou testemunha de toda e de cada situação que vivo, seja na companhia de outros ou na minha própria solidão, no barulho ou no silêncio. Alguém que eu poderia até jurar ser onisciente, porque por vezes senti que me olhava como se legendasse meu pensamento. Mas sem nunca me julgar. Sem nunca esboçar qualquer tipo de reação. Essa presença, que se demora em me observar de pertinho, quieta, parada, me vê tomar banho, vela meu sono, me assiste a arriar a bermuda para me masturbar, ouve as minhas preces e escuta quando choro e xingo na mesma medida, com a mesma intenção. Ela vê tudo. Tudo sobre mim, ela vê. Passeia pela minha vida como um olho que sobe e desce de direção, mirando o meu passado e adivinhando meu futuro. Mas sempre parecendo muito mais interessada no meu presente, como se estivesse a todo i...

fulano 👻

NS1.38.2.23.174 Ser não-monogâmico e praticante da anarquia relacional é deixar escapar o nome de uma pessoa durante uma conversa em aplicativos de paquera, sem utilizar rótulos, e ser atingido pela pergunta: — Quem é Fulano? Antes de querer problematizar qualquer coisa, aviso: não vejo problema nenhum com a pergunta, mas o contexto importa. Fulano apareceu uma única vez numa mensagem longa sobre meus planos de fim de semana. Mas nada interessou tanto à pessoa com quem eu conversava quanto descobrir quem era Fulano. — É alguém que eu conheço. – respondi. Ora, quem mais poderia ser? — Pensei que fosse seu namorado. – ele confessou. — Pode ser, pode não ser. Ainda assim, continua sendo alguém que eu conheço. Ele disse que entendeu e digitou uma quantidade exagerada de letras “k”, como se quisesse maquiar a frustração de não saber com exatidão o espaço que Fulano ocupa na minha vida. Namorado? Amigo? Marido? Ficante? Ficante premium? Ele não queria saber "quem" era Fulano, mas ...

oráculo 🔮

"Tô vendo aqui que você não precisa ficar triste", ele constatou. "Sabe aquela linha? Ela diz que você ainda vai encontrar o amor." Olhei para ele com desconfiança, através da tela do celular. Seus olhos percorriam as linhas da minha mão como quem decifra enigmas antigos, mas eu sabia que eram apenas evidências óbvias fantasiadas de revelação. Fingir que acreditava não era tão difícil. Afinal, suas palavras soavam como o unguento exato para meu coração ferido. Mas lembrando que a diferença entre remédio e veneno é a dose ingerida, precisei desconfiar. Meu ceticismo começou no instante em que ele pediu uma foto da minha palma direita. Estávamos a quilômetros de distância e, ainda assim, ele dizia ter acesso às camadas mais sutis da minha vida a partir de um retrato em pixels. Como um médico que sequer toca o paciente, ele diagnosticava meu futuro e receitava pílulas de sabedoria leve o bastante para anestesiar, mas rasa demais para me curar. Na minha ingenuidade e se...

ritíssima 👑

NS1.37.13.14.109 Morreu alguém que eu amava. Agora sei que é verdade o que dizem: abre-se mesmo um buraco no peito de quem ficou, mais ou menos do tamanho da saudade que se sente por quem partiu. O corpo entra num estado de suspensão, como se ficasse rarefeito, e os sentidos, entorpecidos. Tem mais: o peito dói todo dia com pontadas que te pegam de supetão. As noites ficam compridas, o travesseiro vira lenço e dá um certo medo de dormir, porque dormir é ridiculamente parecido com morrer. Não estou delirando. Comece a perceber o dia como um fractal da sua vida inteira e vai entender as semelhanças. Sei que Câncer está no meu ascendente e lua, trazendo fortes inclinações ao drama, mas a angústia silenciosa que pisa no meu peito não me deixa mentir sobre nada agora e nem consegue me impedir de falar apaixonadamente. Eu apenas deito, com medo mesmo, e sinto a falta dela – Ritíssima. Se é verdade que a morte é um descanso, talvez você preferisse viver cansada. É a minha aposta. Claro, as di...

porto seguro ⚓

NS1.37.11.2.39 Adoro quando elogiam minha comunicação ou quando dizem que é bom conversar comigo . Nesses momentos, cai a ficha de que realmente cresci e deixei de ser o garotinho tímido que mal conseguia responder olhando nos olhos das pessoas — ou o adolescente que, quando perguntavam se estava bem, escrevia os sentimentos em um caderno, entregava para a pessoa e saía correndo em seguida, porque não sustentava a coragem de se sentir vulnerável.   Minha comunicação deu um belo salto, daqueles triplo carpados. E foi por meu próprio mérito. Aprendi a falar e a ouvir. Aprendi a tornar interessante a experiência de conversar comigo. Aprendi a criar pontes com minhas palavras. É nítido como isso transformou meus relacionamentos, ao ponto de receber com frequência esse tipo de elogio.   Infelizmente, também é muito comum eu me sentir usado pelas pessoas , justamente por toda essa capacidade que desenvolvi com muito esforço. Há quem monte em cima de mim e se aproveite do ...

coerência ⚖️

NS1.37.10.2.12 Chega o dia em que a vida cobra que eu acredite nas coisas que digo que acredito. O dia em que as palavras que lancei pro mundo voltam caladas pra mim, depois de se depararem com o espelho da realidade. Nesse espelho, vejo o reflexo das coisas que sinto em silêncio, como se tivesse vergonha de sentir. E as palavras me perguntam: — Você ainda acredita na gente, agora que essas emoções consomem a sua pele? Elas conhecem bem meu desafio de amar tudo o que posso e deixar livre tudo o que amo, mas não entendem que as ideias que carrego não são escudos – são portas abertas, arejando a maneira que escolhi amar. — Sim. – respondi. — Eu acredito. Eu devo acreditar. Coerência é um exercício diário. Uma experiência crua, ardendo no corpo, no peito, nos pensamentos que não param pra dormir, que se contradizem na tentativa de encontrar uma maneira fácil de sentir o que sinto sem trair o que acredito. Não existe. O que existe é a presença, a coragem e a honestidade — seguidas pela inc...

superprotegido 💆

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NS1.37.9.10.252 Ontem, fiz Lindinha, Biel e Marcelo jogarem Isso Não É Um Jogo comigo. Vi o baralho jogado na mochila, que fiz para passar o fim de semana com a minha mãe, e fiquei doido para deixar meu irmão sem graça com umas perguntas bem íntimas, rsrs. Foi assim que surgiu a pergunta: Se você pudesse mudar qualquer coisa na maneira como você foi criado, o que você mudaria? Sem pensar muito, respondi que, se pudesse mudar algo na minha criação, escolheria não ter sido superprotegido pela minha mãe. Desde cedo, ela sabia que eu era uma criança viada, porque eu tinha os mesmos trejeitos do tio dela, que era gay. Ele foi rejeitado pela família e morreu de forma trágica, sozinho, vítima da AIDS. Minha mãe amava muito esse tio. O medo de que eu passasse pelo mesmo a assustou, ainda mais porque morávamos com meu pai, que na época era uma pessoa muito diferente (e não no bom sentido). Ela tinha receio de que ele percebesse meu jeito e reagisse com preconceito ou violência. Então, como tod...